A Arte de e para superar a Vida

Saber & Educar, Nov 2009

Criar e contemplar uma obra de arte é estabelecer um diálogo privilegiado entre o mundo cognitivo e o mundo afectivo. Na experiência estética, as relações que se estabelecem aproximam-nos do contexto global da vida. Neste artigo, pretendemos perceber como o artista, ele próprio um ser diferente e individual, sente, vê e encara essa realidade quando tem uma deficiência motora. Deficiência essa, em que a “ausência” de membros fundamentais para o domínio das técnicas e de toda a representação expressiva e estética, já seriam uma “condicionante” para o mais comum dos mortais. Que força move esta expressividade? Que “gritos” se soltam nesta representação da arte? Que factores de resiliência estão presentes neste indivíduo, que perante uma situação adversa, desenvolve e usa a Arte de e para superar a vida?

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A Arte de e para superar a Vida

ESE de Paula Frassinetti Revista Saber & Educar / Cadernos de Estudo / 14 A Arte de e para superar a Vida Ana Maria Paula Marques Gomes Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti Resumo Criar e contemplar uma obra de arte é estabelecer um diálogo privilegiado entre o mundo cognitivo e o mundo afectivo. Na experiência estética, as relações que se estabelecem aproximam-nos do contexto global da vida. Neste artigo, pretendemos perceber como o artista, ele próprio um ser diferente e individual, sente, vê e encara essa realidade quando tem uma deficiência motora. Deficiência essa, em que a “ausência” de membros fundamentais para o domínio das técnicas e de toda a representação expressiva e estética, já seriam uma “condicionante” para o mais comum dos mortais. Que força move esta expressividade? Que “gritos” se soltam nesta representação da arte? Que factores de resiliência estão presentes neste indivíduo, que perante uma situação adversa, desenvolve e usa a Arte de e para superar a vida? Palavras-chave Arte; deficiência motora; factores protectores; resiliência. Abstract Creating and contemplating a work of art is establishing a privileged dialogue between the cognitional world and the emotional world. In an aesthetic experience, the relationships established, bring us closer to the overall context of life. In this article we intend to understand how the artist, himself a different and individual being, feels, sees and faces the reality, when he has a physical disability. Such a disability in the "absence” of key limbs with which to master the techniques, and all the expressive and aesthetic representation, would already be a “setback” for the most common person. What force moves this expressiveness? What "screams" are set free in this representation of art? What resilience factors are present in this individual, whom in an adverse situation, develops and uses the Art of and to, to cope with life? Keywords Art; physical disabilities; protective factors; resilience. Resumen Crear y contemplar una obra de arte es establecer un diálogo privilegiado entre el mundo cognitivo y el mundo afectivo. En la experiencia estética, las relaciones que se establecen nos aproximan del contexto global de la vida. En este artículo, pretendemos percibir como el artista, él propio un ser diferente e individual, siente, ve y enfrenta esa realidad cuando tiene una deficiencia motora. Deficiencia esa, en que la “ausencia” de miembros fundamentales para el dominio de las técnicas y de toda la representación expresiva y estética, ya serían una “condicionante” para el más común de los mortales. ¿Que fuerza mueve esta expresividad? ¿Que “gritos” se sueltan en esta representación del arte? ¿Que factores de resiliencia están presentes en este individuo, que ante una situación adversa, desarrolla y usa la Arte de y para superar la vida? Palabras-clave Arte; deficiencia motora; factores protectores; resiliencia. Résumé Créer et contempler une chef-d’-oeuvre s’est établir un dialogue privilegie entre le monde cognitif et le monde affectif. A l’expérience esthétique, les relations qui s’établisent nous aprochent du contexte global de la vie. 1 ESE de Paula Frassinetti Revista Saber & Educar / Cadernos de Estudo / 14 Dans cet article, nous voulons nous apercevoir comme l’artiste, lui propre un devenir différent et individuel, sent, voit et envisage cette réalité quand porteur d’un défaut moteur. Défaut lui, oú l’absence de members fundamentals pour le domaine des techniques et de toute la representation expressive et esthétique, soyent une condition pour les plus communs des mortels. Quelle force mouve cet expressivité? Quels cries se libertent dans cette representation d’art? Quels sont les facteurs qui sont presents en cet individu, qui devant une situation adverse, développe et utilise l’art de et pour surmonter la vie? Mots-clé Art; défaut moteur; facteurs de protection; résilience. A arte O mundo à nossa volta apresenta-se perante o olhar como uma proposta aliciante de aprendizagem que permite por sua vez, a interpretação de um mundo mais próprio que é o nosso. Ver e olhar, é projectar a realidade exterior no interior de nós mesmos – um reflexo que espelha a possibilidade de compreender este mundo de contradições. A educação, para e pela arte, contém potencialidades cognitivas únicas que podem constituir um auxílio precioso a este conhecimento, abrangendo contextos muito diversificados. Fazendo referência a Fanon1, a arte “capacita um homem ou uma mulher a não ser um estranho no seu próprio meio envolvente”, acrescentaríamos, a não ser um estranho no domínio do seu próprio corpo. A arte supera o estado de despersonalização, inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence, reforçando e ampliando o seu lugar no mundo. Mantero (1999) na sua dissertação para obtenção do grau de mestre em Estética e Filosofia da Arte, faz referência a Michael J. Parsons, em que este defende uma abordagem sequencial da nossa compreensão da arte segundo o ponto de vista do desenvolvimento cognitivo. Utiliza a pintura como base de trabalho, definindo cinco estádios de desenvolvimento estético2 que partem de conceitos de natureza artística: critérios de preferência, beleza e realismo, expressividade, estilo e forma e autonomia. A estes estádios corresponderão níveis progressivos de capacidade para fazer interpretações e juízos racionais, ou seja, novas formas de ver que se organizam numa determinada sequência. Por outro lado, a organização vertical dos estádios é interceptada no plano horizontal por quatro tópicos que definem as ideias básicas utilizadas na compreensão da pintura no que diz respeito ao tema, à expressão das emoções, às características formais e aos juízos. Esta nova forma de ver, a que Parsons chama de estádios, não define “tipos de pessoas”, mas antes procura estabelecer uma estrutura ou conjunto de ideias através das quais será possível entender a pintura de um modo mais profundo. Um dos objectivos deste trabalho é perceber como o artista deficiente motor, sente, vê e estabelece essa estrutura na ausência dos dois membros superiores. Na experiência estética poderemos adquirir capacidades progressivamente mais complexas na compreensão da arte e esta não se dá directamente, há que interpretá-la e encontrar-lhe um sentido. Para além dos juízos de gosto e de beleza, para além das primeiras impressões, há que partir para um estádio superior de entendimento da arte, tendo em vista um consequente desenvolvimento cognitivo. Na nossa mente existe um reservatório de imagens (imaginário) capaz de tornar sensível e material o lado imaterial da vida. Quando o artista faz passar essas imagens para o domínio da representação simbólica, recupera uma nova visualidade expressiva que recria diferentes níveis de apropriação do Mundo. A criatividade é a possibilidade de realizar uma produção inovadora na qual a imaginação (capacidade de pensar por imagens) tem um papel primordial. A flexibilidade de pensamento e o (...truncated)


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Ana Paula Gomes. A Arte de e para superar a Vida, Saber & Educar, 2009, Volume 14, DOI: 10.17346/se.vol14.115