A Arte de e para superar a Vida
ESE de Paula Frassinetti
Revista Saber & Educar / Cadernos de Estudo / 14
A Arte de e para superar a Vida
Ana Maria Paula Marques Gomes
Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti
Resumo
Criar e contemplar uma obra de arte é estabelecer um diálogo privilegiado entre o mundo cognitivo e o
mundo afectivo. Na experiência estética, as relações que se estabelecem aproximam-nos do contexto global
da vida. Neste artigo, pretendemos perceber como o artista, ele próprio um ser diferente e individual,
sente, vê e encara essa realidade quando tem uma deficiência motora. Deficiência essa, em que a
“ausência” de membros fundamentais para o domínio das técnicas e de toda a representação expressiva e
estética, já seriam uma “condicionante” para o mais comum dos mortais. Que força move esta
expressividade? Que “gritos” se soltam nesta representação da arte? Que factores de resiliência estão
presentes neste indivíduo, que perante uma situação adversa, desenvolve e usa a Arte de e para superar a
vida?
Palavras-chave
Arte; deficiência motora; factores protectores; resiliência.
Abstract
Creating and contemplating a work of art is establishing a privileged dialogue between the cognitional
world and the emotional world. In an aesthetic experience, the relationships established, bring us closer to
the overall context of life. In this article we intend to understand how the artist, himself a different and
individual being, feels, sees and faces the reality, when he has a physical disability. Such a disability in the
"absence” of key limbs with which to master the techniques, and all the expressive and aesthetic
representation, would already be a “setback” for the most common person. What force moves this
expressiveness?
What "screams" are set free in this representation of art? What resilience factors are present in this
individual, whom in an adverse situation, develops and uses the Art of and to, to cope with life?
Keywords
Art; physical disabilities; protective factors; resilience.
Resumen
Crear y contemplar una obra de arte es establecer un diálogo privilegiado entre el mundo cognitivo y el
mundo afectivo. En la experiencia estética, las relaciones que se establecen nos aproximan del contexto
global de la vida. En este artículo, pretendemos percibir como el artista, él propio un ser diferente e
individual, siente, ve y enfrenta esa realidad cuando tiene una deficiencia motora. Deficiencia esa, en que la
“ausencia” de miembros fundamentales para el dominio de las técnicas y de toda la representación
expresiva y estética, ya serían una “condicionante” para el más común de los mortales. ¿Que fuerza mueve
esta expresividad? ¿Que “gritos” se sueltan en esta representación del arte? ¿Que factores de resiliencia
están presentes en este individuo, que ante una situación adversa, desarrolla y usa la Arte de y para superar
la vida?
Palabras-clave
Arte; deficiencia motora; factores protectores; resiliencia.
Résumé
Créer et contempler une chef-d’-oeuvre s’est établir un dialogue privilegie entre le monde cognitif et le
monde affectif. A l’expérience esthétique, les relations qui s’établisent nous aprochent du contexte global
de la vie.
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ESE de Paula Frassinetti
Revista Saber & Educar / Cadernos de Estudo / 14
Dans cet article, nous voulons nous apercevoir comme l’artiste, lui propre un devenir différent et
individuel, sent, voit et envisage cette réalité quand porteur d’un défaut moteur. Défaut lui, oú l’absence de
members fundamentals pour le domaine des techniques et de toute la representation expressive et
esthétique, soyent une condition pour les plus communs des mortels. Quelle force mouve cet expressivité?
Quels cries se libertent dans cette representation d’art? Quels sont les facteurs qui sont presents en cet
individu, qui devant une situation adverse, développe et utilise l’art de et pour surmonter la vie?
Mots-clé
Art; défaut moteur; facteurs de protection; résilience.
A arte
O mundo à nossa volta apresenta-se perante o olhar como uma proposta aliciante de aprendizagem que
permite por sua vez, a interpretação de um mundo mais próprio que é o nosso. Ver e olhar, é projectar a
realidade exterior no interior de nós mesmos – um reflexo que espelha a possibilidade de compreender
este mundo de contradições.
A educação, para e pela arte, contém potencialidades cognitivas únicas que podem constituir um auxílio
precioso a este conhecimento, abrangendo contextos muito diversificados. Fazendo referência a Fanon1, a
arte “capacita um homem ou uma mulher a não ser um estranho no seu próprio meio envolvente”,
acrescentaríamos, a não ser um estranho no domínio do seu próprio corpo. A arte supera o estado de
despersonalização, inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence, reforçando e ampliando o seu lugar no
mundo.
Mantero (1999) na sua dissertação para obtenção do grau de mestre em Estética e Filosofia da Arte, faz
referência a Michael J. Parsons, em que este defende uma abordagem sequencial da nossa compreensão da
arte segundo o ponto de vista do desenvolvimento cognitivo. Utiliza a pintura como base de trabalho,
definindo cinco estádios de desenvolvimento estético2 que partem de conceitos de natureza artística:
critérios de preferência, beleza e realismo, expressividade, estilo e forma e autonomia. A estes estádios
corresponderão níveis progressivos de capacidade para fazer interpretações e juízos racionais, ou seja,
novas formas de ver que se organizam numa determinada sequência. Por outro lado, a organização vertical
dos estádios é interceptada no plano horizontal por quatro tópicos que definem as ideias básicas utilizadas
na compreensão da pintura no que diz respeito ao tema, à expressão das emoções, às características
formais e aos juízos. Esta nova forma de ver, a que Parsons chama de estádios, não define “tipos de
pessoas”, mas antes procura estabelecer uma estrutura ou conjunto de ideias através das quais será
possível entender a pintura de um modo mais profundo.
Um dos objectivos deste trabalho é perceber como o artista deficiente motor, sente, vê e estabelece essa
estrutura na ausência dos dois membros superiores.
Na experiência estética poderemos adquirir capacidades progressivamente mais complexas na
compreensão da arte e esta não se dá directamente, há que interpretá-la e encontrar-lhe um sentido. Para
além dos juízos de gosto e de beleza, para além das primeiras impressões, há que partir para um estádio
superior de entendimento da arte, tendo em vista um consequente desenvolvimento cognitivo.
Na nossa mente existe um reservatório de imagens (imaginário) capaz de tornar sensível e material o lado
imaterial da vida. Quando o artista faz passar essas imagens para o domínio da representação simbólica,
recupera uma nova visualidade expressiva que recria diferentes níveis de apropriação do Mundo. A
criatividade é a possibilidade de realizar uma produção inovadora na qual a imaginação (capacidade de
pensar por imagens) tem um papel primordial. A flexibilidade de pensamento e o (...truncated)