Who educates children?Intra-generational educational processes in a suburb of Maputo

Saber & Educar, Dec 2016

This paper discusses educational processes among children in social life in a suburb of the city of Maputo, Mozambique. Based on the recognition of children as competent social actors, empirical data were constructed through an ethnographic case study, complemented by participatory methods. Results show that, in the studied context, education cannot be considered as a linear and unidirectional process, but it is marked by a high degree of complexity, taking into account the multiplicity of involved actors, senses and forms. Key-words: children, education, Sociology of Childhood, Mozambique.

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Who educates children?Intra-generational educational processes in a suburb of Maputo

SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A “QUEM EDUCA AS CRIANÇAS?” PROCESSOS EDUCATIVOS INTRAGERACIONAIS NUM BAIRRO PERIFÉRICO DE MAPUTO Elena Colonna Departamento de Sociologia - Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique 98 Resumo Abstract cativos entre crianças que marcam a vida social num children in social life in a suburb of the city of Ma- O presente artigo procura discutir os processos edu- This paper discusses educational processes among bairro periférico da cidade de Maputo, em Moçambi- puto, Mozambique. Based on the recognition of chil- que. Partindo do reconhecimento das crianças como dren as competent social actors, empirical data were actores sociais competentes, os dados empíricos constructed through an ethnographic case study, apresentados foram construídos através de um estu- complemented by participatory and visual methods. do de caso etnográfico, com inspiração participativa Results show that, in the studied context, education e visual. Os resultados mostram que, no contexto cannot be considered as a linear and unidirectional estudado, a educação não pode ser encarada a prio- process, but it is marked by a high degree of complex- ri como um processo linear e unidireccional, mas é ity, taking into account the multiplicity of involved marcada por um elevado grau de complexidade, ten- actors, senses and forms. do em conta a multiplicidade de actores, sentidos e Keywords formas que nelas se entrecruzam. children, education, Sociology of Childhood, Mozambique. Palavras-chave SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A crianças, educação, Sociologia da Infância, Moçambique. 99 Introdução do senso comum segundo a qual os adultos educam Metodologia: uma etnografia participativa e visual com crianças os processos múltiplos e complexos que tem lugar no Mas será que é possível mesmo conhecer o “verdadeiro” ponto de vista num bairro periférico de Maputo. que nós saibamos ou o que as crianças acham que nós queremos saber? A educação é um processo social, é desenvolvimento. Não é a preparação para a vida, é a própria vida. John Dewey Falar de educação significa falar da vida das pessoas e, ainda mais, da vida das crianças que, por se encontrar na primeira etapa das suas vidas, são (erroneamen- te?) consideradas as que mais devem aprender dos outros, as “aprendizes” por excelência. No presente artigo, pretendo desconstruir a ideia simples e linear e as crianças são educadas, explorando as relações e dia-a-dia das crianças que cuidam de outras crianças A partir dos pressupostos da Sociologia da Infância, que reconhece as crianças como actores sociais (James, Jenks, & Prout, 2002; Corsaro, 2010), procurei compreender os processos educativos intrageracionais em que as crianças participam, tanto como educandas assim como educadoras. Como sugerido pela abordagem dos estudos sociais da infância, encarei o processo de socialização “como um processo contínuo, múltiplo em sua direcção e fins, tanto os mais imediatamen- te visíveis quanto os menos perceptíveis, porque co- mummente não reconhecidos pela visão tradicional de socialização que, além da forma, também limita os agentes do processo de socialização e os territórios em que SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A este tem lugar” (Marchi, 2011). Compreender o lugar das crianças? Ou podemos conhecer apenas o que as crianças querem Esta interrogação relativa ao como trazer na minha investigação o ponto de vista das crianças vem-me preocupando já há algum tempo. Eu posso ir para a casa delas, observar as suas actividades, registar as suas acções e as suas conversas. Por muito que pergunte o que estão a fazer e que elas me respondam (coisa que nem sempre acontece), te- rei sempre uma minha interpretação daquilo que me disseram e que aconteceu. E como me comportar nas situações em que não consigo mesmo entender o ponto de vista das crianças e nem dá para lhes perguntar? (Diário de campo, 15/4/09) O material empírico aqui apresentado foi construído a partir de uma “etnografia visual e participativa” (Colonna, 2012) num bairro periférico entre os mu- nicípios de Maputo e Matola, uma zona onde convivem traços urbanos e rurais, fábricas e machambas1, que as crianças ocupam na educação, significa tam- habitações em materiais precários, em material elas se inserem e, desta forma, compreender a socie- procurou entrecruzar o método etnográfico com al- bém entender a ordem geracional (Mayall, 2005) em que dade no seu conjunto. durável e até mesmo “casas de luxo”. A pesquisa gumas ideias das metodologias participativas e visuais, que são propostas no âmbito da Sociologia da Infância como uma estratégia eficaz para reduzir o adultocentrismo e encarar as crianças como actores sociais plenos (Sarmento, 2004). A postura como investigadora no campo partiu do reconhecimento das crianças como os sujeitos mais competentes e infor- mados para a produção de conhecimentos acerca das suas vidas (Christensen & James, 2000; Christensen & James, 2005). Uma atenção especial foi prestada às questões éticas, através do consentimento infor- mado formal e informal por parte de crianças e adultos2, através da sensibilidade da investigadora e, fi- nalmente, através do estabelecimento de relações o mais possíveis horizontais e marcadas por reciprocidades entre a investigadora e as crianças. 100 De acordo com Fernandes (2009, p. 113), “a investigação perimentar também uma variedade de ferramentas, uma investigação policromática e multifacetada” que através da observação e de compreender quais seriam sociológica dos quotidianos infantis é, antes de mais, com o intuito de complementar os dados construídos nos coloca frente a um duplo desafio, ligado tanto à de- os instrumentos mais úteis naquele contexto. finição da identidade e do papel do investigador, quanto A selecção das actividades de investigação foi negocia- à construção das ferramentas metodológicas. Como vi- da com as crianças e incluiu técnicas de carácter oral mos, o investigador é desafiado a negociar e a redefinir (conversas informais e entrevistas), escrito (diários, en- a sua identidade e o seu papel na relação que vai estabe- saios e questionários) e visual (fotografias, vídeos e dese- lecendo com as crianças, ao longo do processo de inves- nhos). Como relatado por Hunleth (2011), as actividades tigação. Através de uma série de negociações, eu optei estruturadas ofereceram-me um “pretexto” para estar basicamente por posicionar-me como “alguém que está com as crianças, encheram silêncios constrangedores, seriamente interessado em compreender como o mundo abriram possibilidades para as crianças se divertirem social é visto a partir da perspectiva das crianças, mas e facilitaram a construção da nossa relação. Contudo, sem fazer uma ambígua tentativa de ser uma criança” enquanto eu esperava recolher informa (...truncated)


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Elena Colonna. Who educates children?Intra-generational educational processes in a suburb of Maputo, Saber & Educar, 2016, pp. 98-107, Volume 21, DOI: 10.17346/se.vol21.225