Who educates children?Intra-generational educational processes in a suburb of Maputo
SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A
“QUEM EDUCA AS
CRIANÇAS?”
PROCESSOS
EDUCATIVOS
INTRAGERACIONAIS
NUM BAIRRO
PERIFÉRICO DE
MAPUTO
Elena Colonna
Departamento de Sociologia - Universidade Eduardo Mondlane, Moçambique
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Resumo
Abstract
cativos entre crianças que marcam a vida social num
children in social life in a suburb of the city of Ma-
O presente artigo procura discutir os processos edu-
This paper discusses educational processes among
bairro periférico da cidade de Maputo, em Moçambi-
puto, Mozambique. Based on the recognition of chil-
que. Partindo do reconhecimento das crianças como
dren as competent social actors, empirical data were
actores sociais competentes, os dados empíricos
constructed through an ethnographic case study,
apresentados foram construídos através de um estu-
complemented by participatory and visual methods.
do de caso etnográfico, com inspiração participativa
Results show that, in the studied context, education
e visual. Os resultados mostram que, no contexto
cannot be considered as a linear and unidirectional
estudado, a educação não pode ser encarada a prio-
process, but it is marked by a high degree of complex-
ri como um processo linear e unidireccional, mas é
ity, taking into account the multiplicity of involved
marcada por um elevado grau de complexidade, ten-
actors, senses and forms.
do em conta a multiplicidade de actores, sentidos e
Keywords
formas que nelas se entrecruzam.
children, education, Sociology of Childhood, Mozambique.
Palavras-chave
SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A
crianças, educação, Sociologia da Infância, Moçambique.
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Introdução
do senso comum segundo a qual os adultos educam
Metodologia:
uma etnografia
participativa
e visual com
crianças
os processos múltiplos e complexos que tem lugar no
Mas será que é possível mesmo conhecer o “verdadeiro” ponto de vista
num bairro periférico de Maputo.
que nós saibamos ou o que as crianças acham que nós queremos saber?
A educação é um processo social, é desenvolvimento.
Não é a preparação para a vida, é a própria vida.
John Dewey
Falar de educação significa falar da vida das pessoas e,
ainda mais, da vida das crianças que, por se encontrar
na primeira etapa das suas vidas, são (erroneamen-
te?) consideradas as que mais devem aprender dos
outros, as “aprendizes” por excelência. No presente
artigo, pretendo desconstruir a ideia simples e linear
e as crianças são educadas, explorando as relações e
dia-a-dia das crianças que cuidam de outras crianças
A partir dos pressupostos da Sociologia da Infância,
que reconhece as crianças como actores sociais (James,
Jenks, & Prout, 2002; Corsaro, 2010), procurei compreender os processos educativos intrageracionais em
que as crianças participam, tanto como educandas assim como educadoras. Como sugerido pela abordagem
dos estudos sociais da infância, encarei o processo de
socialização “como um processo contínuo, múltiplo
em sua direcção e fins, tanto os mais imediatamen-
te visíveis quanto os menos perceptíveis, porque co-
mummente não reconhecidos pela visão tradicional
de socialização que, além da forma, também limita os
agentes do processo de socialização e os territórios em que
SA B E R & E D U C A R 2 1 / 2 0 1 6 : E S T U D O S DA C R I A N Ç A
este tem lugar” (Marchi, 2011). Compreender o lugar
das crianças? Ou podemos conhecer apenas o que as crianças querem
Esta interrogação relativa ao como trazer na minha investigação o
ponto de vista das crianças vem-me preocupando já há algum tempo.
Eu posso ir para a casa delas, observar as suas actividades, registar as
suas acções e as suas conversas. Por muito que pergunte o que estão a
fazer e que elas me respondam (coisa que nem sempre acontece), te-
rei sempre uma minha interpretação daquilo que me disseram e que
aconteceu. E como me comportar nas situações em que não consigo
mesmo entender o ponto de vista das crianças e nem dá para lhes perguntar? (Diário de campo, 15/4/09)
O material empírico aqui apresentado foi construído
a partir de uma “etnografia visual e participativa”
(Colonna, 2012) num bairro periférico entre os mu-
nicípios de Maputo e Matola, uma zona onde convivem traços urbanos e rurais, fábricas e machambas1,
que as crianças ocupam na educação, significa tam-
habitações em materiais precários, em material
elas se inserem e, desta forma, compreender a socie-
procurou entrecruzar o método etnográfico com al-
bém entender a ordem geracional (Mayall, 2005) em que
dade no seu conjunto.
durável e até mesmo “casas de luxo”. A pesquisa
gumas ideias das metodologias participativas e visuais, que são propostas no âmbito da Sociologia da
Infância como uma estratégia eficaz para reduzir o
adultocentrismo e encarar as crianças como actores
sociais plenos (Sarmento, 2004). A postura como investigadora no campo partiu do reconhecimento das
crianças como os sujeitos mais competentes e infor-
mados para a produção de conhecimentos acerca das
suas vidas (Christensen & James, 2000; Christensen
& James, 2005). Uma atenção especial foi prestada
às questões éticas, através do consentimento infor-
mado formal e informal por parte de crianças e adultos2, através da sensibilidade da investigadora e, fi-
nalmente, através do estabelecimento de relações o
mais possíveis horizontais e marcadas por reciprocidades entre a investigadora e as crianças.
100
De acordo com Fernandes (2009, p. 113), “a investigação
perimentar também uma variedade de ferramentas,
uma investigação policromática e multifacetada” que
através da observação e de compreender quais seriam
sociológica dos quotidianos infantis é, antes de mais,
com o intuito de complementar os dados construídos
nos coloca frente a um duplo desafio, ligado tanto à de-
os instrumentos mais úteis naquele contexto.
finição da identidade e do papel do investigador, quanto
A selecção das actividades de investigação foi negocia-
à construção das ferramentas metodológicas. Como vi-
da com as crianças e incluiu técnicas de carácter oral
mos, o investigador é desafiado a negociar e a redefinir
(conversas informais e entrevistas), escrito (diários, en-
a sua identidade e o seu papel na relação que vai estabe-
saios e questionários) e visual (fotografias, vídeos e dese-
lecendo com as crianças, ao longo do processo de inves-
nhos). Como relatado por Hunleth (2011), as actividades
tigação. Através de uma série de negociações, eu optei
estruturadas ofereceram-me um “pretexto” para estar
basicamente por posicionar-me como “alguém que está
com as crianças, encheram silêncios constrangedores,
seriamente interessado em compreender como o mundo
abriram possibilidades para as crianças se divertirem
social é visto a partir da perspectiva das crianças, mas
e facilitaram a construção da nossa relação. Contudo,
sem fazer uma ambígua tentativa de ser uma criança”
enquanto eu esperava recolher informa (...truncated)