Preparação e caracterização físico-química de complexos de inclusão entre anestésicos locais e hidroxipropil-beta-ciclodextrina
Quim. Nova, Vol. 30, No. 4, 777-784, 2007
Carolina Morales Moraes, Priscila Abrami, Marcos Moisés Gonçalves e Newton Andréo Filho
Universidade de Sorocaba, Cidade Universitária, Rodovia Raposo Tavares, km 92,5, 18023-000 Sorocaba – SP, Brasil
Sérgio Antonio Fernandes e Eneida de Paula
Departamento de Bioquímica, Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas, CP 6109, 13083-970 Campinas – SP, Brasil
Leonardo Fernandes Fraceto*
Departamento de Engenharia Ambiental, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Campus Sorocaba, Av. Três
de Março, 511, 18087-180 Sorocaba - SP, Brasil
Artigo
PREPARAÇÃO E CARACTERIZAÇÃO FÍSICO-QUÍMICA DE COMPLEXOS DE INCLUSÃO ENTRE
β -CICLODEXTRINA
ANESTÉSICOS LOCAIS E HIDROXIPROPIL-β
Recebido em 9/1/06; aceito em 27/10/06; publicado na web em 28/5/07
PREPARATION AND PHYSICO-CHEMICAL CHARACTERIZATION OF INCLUSION COMPLEXES BETWEEN LOCAL
ANESTHETICS AND HYDROXYPROPYL-β-CYCLODEXTRIN. S(-) Bupivacaine (S(-)BVC) and Lidocaine (LDC) are widely
used local anesthetics (LA). Hydroxypropyl β-cyclodextrin (HP-β-CD) is used as a drug-carrier system. The aim of this work was
to characterize inclusion complexes between LA and HP-β-CD. The affinity constants determined at different pHs show favourable
complexation. The release kinetics experiments showed that S(-)BVC and LDC changed the released profiles in the presence of
HP-β-CD. Nuclear magnetic resonance experiments gave information about the interaction between LA and the cyclodextrin cavity.
This study focused on the physicochemical characterization of drug-delivery formulations that come out as potentially new
therapeutic options for pain treatment.
Keywords: S(-) Bupivacaine; lidocaine; cyclodextrin.
INTRODUÇÃO
Os anestésicos locais (AL) são moléculas anfifílicas utilizadas
no controle da dor crônica ou aguda e que possuem toxicidade proporcional à potência1. Evitam ou aliviam a dor por interromperem
a condução nervosa através da ligação específica aos canais de Na+
voltagem-dependente dos axônios, bloqueando, assim, o movimento
de íons sódio para o interior da célula nervosa2, impedindo a propagação do estímulo nervoso.
Os anestésicos locais têm efeito direto nos canais de sódio e
interagem com diferentes graus de afinidade com esta proteína, dependendo do estado funcional (ativado, inativado, em repouso) da
mesma. Até a década de 90, acreditava-se que a forma ionizada dos
AL seria a responsável pelo efeito anestésico (ligação direta ao canal de sódio) e que caberia a forma neutra dos AL (mais hidrofóbica)
a função de facilitar à penetração dos anestésicos nas membranas3,4.
No entanto, trabalhos do grupo de Catterall5-6, usando mutação sítioespecífica, demonstraram que anestésicos locais, em sua forma neutra, interagem e modificam a função de canais de sódio.
Em clínica, os anestésicos locais mais amplamente utilizados
na terapia da dor aguda e crônica são os do tipo amino-amida7,
como bupivacaína, BVC e lidocaína, LDC (Figura 1).
A bupivacaína é mais cardiotóxica que doses equieficazes da
lidocaína. Clinicamente, a cardiotoxicidade da bupivacaína manifesta-se por arritmias ventriculares graves e depressão miocárdica
após administração intravascular inadvertida de grandes doses. É
provável que este efeito da bupivacaína seja devido a vários fatores:
lidocaína e bupivacaína bloqueiam os canais de sódio cardíacos rapidamente durante a sístole, entretanto, a bupivacaína dissocia-se
muito mais lentamente que a lidocaína durante a diástole, de forma
que uma fração significativa de canais de sódio permanece bloquea*e-mail:
Figura 1. Estruturas químicas dos anestésicos locais (bupivacaína e
lidocaína) e representação esquemática da estrutura da HP-b-CD
apresentando sete monômeros de glicose
da no final da diástole com bupivacaína8. Portanto, o bloqueio com
bupivacaína é cumulativo e substancialmente maior do que seria previsível por sua potência anestésica local.
A bupivacaína, por possuir estereocentro, possui dois isômeros
R e S. Durante muito tempo se utilizou a mistura racêmica de
bupivacaína, porém, testes in vitro com animais, injetando-se
intravenosamente a forma enantiomérica S(-) da bupivacaína
(levobupivacaína) apresenta menor efeito cardiotóxico e menores
efeitos tóxicos no sistema nervoso central em comparação com
R(+)bupivacaína e bupivacaína racêmica9.
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Moraes et al.
Estudos clínicos com o enantiômero levógiro da bupivacaína
(S(-)BVC) confirmaram este resultado e mostraram maior segurança clínica em função da menor cardiotoxicidade, além de não
apresentarem diferenças na duração do bloqueio sensorial10,11. A
potência da levobupivacaína e da mistura racêmica é igual, porém
o fato de sua toxicidade ser reduzida torna este isômero um anestésico local com muito mais vantagens para ser utilizado na prática
clínica11.
Sabe-se, desde o final do século XIX, que a hidrofobicidade
dos anestésicos locais é diretamente proporcional ao tempo de duração de anestesia, bem como à toxicidade12. Como as características desejáveis para uma molécula anestésica incluem, além de longa
duração de ação e da seletividade para o bloqueio sensorial em
relação ao bloqueio motor, a diminuição da toxicidade local e/ou
sistêmica13, uma alternativa, que atualmente tem se mostrado capaz de promover estes efeitos desejáveis, é a liberação modificada
desses fármacos, através de formação de complexos de inclusão
com ciclodextrinas14,15.
Ciclodextrinas (CDs) são oligossacarídeos cíclicos, compostos por unidades de glicose unidas através de ligações α-1,4, originados da degradação do amido pelas enzimas ciclodextrinaglicosiltransferases, sintetizadas por alguns microrganismos16,17.
As três ciclodextrinas naturais são a alfa (α-CD), a beta (βCD) e a gama (γ-CD), compostas de 6, 7 e 8 unidades de D-(+)glicopiranose, respectivamente. Na ciclodextrina, grupos hidroxila
primários e secundários estão orientados para o exterior do anel
formado pelas unidades de glicose, conferindo-lhe um exterior
bastante hidrofílico e uma cavidade interna hidrofóbica. Tal cavidade permite a formação de complexos de inclusão entre as
ciclodextrinas e moléculas que apresentem dimensões compatíveis
com esta cavidade interna18-20.
As β-CDs são as ciclodextrinas (Figura 1) mais amplamente utilizadas na complexação de várias classes de fármacos20-22. As aplicações farmacêuticas das ciclodextrinas vão desde aumento da solubilidade do fármaco, aumento da biodisponibilidade do fármaco, aumento da estabilidade química do fármaco, modificações no odor e
sabor até redução na taxa de hemólise de fármacos20,23,24.
No entanto, a administração parenteral das CDs e, particularmente da β-CD, pode causar nefrotoxidade devido à formação de
um complexo de baixa solubilidade entre β-CD e colesterol, que
precipita e impede a filtração glomerular nos rins25. A administração de β-CD também pode causar hemólise de eritrócitos humanos26. Por isso, foram desenvolvidas ciclodextrinas modificadas,
de forma a melhorar as propriedades de carre (...truncated)