Lipossomas: a bala mágica acertou?
Quim. Nova, Vol. 25, No. 6B, 1181-1185, 2002
Nuno C. Santos*
Instituto de Bioquímica/Instituto de Medicina Molecular, Faculdade de Medicina de Lisboa, Av. Prof. Egas Moniz, 1649-028
Lisboa - Portugal
Miguel A. R. B. Castanho
Departamento de Química e Bioquímica, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Campo Grande C8, 1749-016 Lisboa
- Portugal e Centro de Química Física Molecular, Complexo I, Instituto Superior Técnico, Av. Rovisco Pais, 1049-001 Lisboa Portugal
Divulgação
LIPOSSOMAS: A BALA MÁGICA ACERTOU?
Recebido em 15/2/02; aceito em 10/4/02
LIPOSOMES: HAS THE MAGIC BULLET HIT THE TARGET? Efficient drug delivery systems are as important as drug
themselves. A powerful drug unable to reach the target cell is useless in practice. Ehrlich’s Magic Bullet was the first carrier
system to be proposed. The evolution in this domain has been quite slow as the natural mechanisms of mammals against foreign
products are hard to overcome. However, lipid-based systems (liposomes and related vesicles) have attained reasonable success.
The basic preparations and structural features of liposomes and related vesicles as well as their applications are addressed from
the chemist’s and biochemist’s point of view.
Keywords: liposome; vesicle; drug delivery.
INTRODUÇÃO
Ao longo dos tempos, a utilização da maioria dos compostos
terapêuticos tem sido sempre limitada pela impossibilidade de aumento da sua dosagem. A retenção ou degradação do agente
terapêutico, baixa solubilidade e, em especial, os efeitos colaterais
perniciosos inerentes à sua utilização em concentrações elevadas,
tornam muitas vezes difícil a utilização da dosagem necessária para
que este cumpra a sua função. Este problema levou a que, durante o
século XX, e em especial no decorrer das últimas décadas, tenha
sido levado a cabo um grande esforço no sentido de desenvolver um
sistema capaz de transportar um composto terapêutico (drogas, em
especial as dirigidas a tumores, antibióticos, enzimas, hormonas,
agentes quelantes ou compostos modificadores da célula) até um
alvo específico (órgão, tecido ou célula).
A primeira proposta de um sistema direccionado de transporte
de fármacos data do início do século XX1, quando Paul Ehrlich propôs o seu modelo, que ficou conhecido por “Bala Mágica de Ehrlich”
(Ehrlich’s Magic Bullet). Neste modelo, o fármaco é ligado ao transportador direccionado, e idealmente exibirá a sua actividade
farmacológica apenas no tecido alvo (mecanismos de especificidade,
como a ligação entre antigénio e anticorpo, eram já conhecidos).
Assim, os efeitos indesejáveis resultantes da sua acção em outros
tecidos são largamente diminuídos, enquanto o aumento da eficiência permite o decréscimo da dose administrada. Porém, por mais
atractivos e simples que possam parecer os conceitos de Ehrlich, são
muito poucos os sucessos até agora obtidos2,3.
As primeiras tentativas para a obtenção de um sistema transportador eficaz tiveram como base o encapsulamento das biomoléculas
a transportar em vesículas de nylon e outros polímeros sintéticos4-6.
Contudo, esta abordagem mostrou-se totalmente inadequada, visto
estas vesículas de material artificial se acumularem no organismo.
O primeiro grande passo em frente nesta área deu-se em 1965,
com a publicação por Alec Bangham e colaboradores de um traba*e-mail:
lho de investigação fundamental acerca da difusão de iões através de
membranas lipídicas artificiais, embora sem qualquer ligação imediata aos estudos de sistemas transportadores de fármacos7. Neste trabalho foi feita a caracterização de um sistema de vesículas
fosfolipídicas ao qual, três anos mais tarde, seria dado o nome de
lipossomas8. No entanto, estas estruturas multilamelares obtidas da
hidratação de fosfolípidos já eram anteriormente conhecidas, sendo
denominadas “figuras de mielina”9. Imediatamente após o trabalho
de Bangham, os lipossomas impuseram-se como um sistema modelo simples para o estudo de membranas biológicas. O sucesso na
incorporação de enzimas em lipossomas10 despertou também o interesse da comunidade científica para a sua aplicação médica e
farmacológica. Em 1971, Gregory Gregoriadis propôs pela primeira
vez a utilização dos lipossomas como sistema transportador de
fármacos11, mantendo desde então um papel preponderante no desenvolvimento desta área.
Os lipossomas são um caso flagrante de um sistema que teve
uma passagem extremamente rápida do campo da investigação para
a aplicação comercial (especialmente na área da cosmética), sem
mesmo as suas propriedades e eficácia estarem completamente estudadas12. Este facto ficou a dever-se, fundamentalmente, à euforia
desencadeada na década de 70 e início da década de 80 pelo potencial de aplicação dos lipossomas nas industrias médica e farmacêutica,
o que veio mesmo a lançar sérias dúvidas sobre o rigor de alguns
resultados da altura13.
Nos anos seguintes e até aos nossos dias, com a mesma finalidade, foi também estudada a aplicação de niossomas, nanopartículas,
co-polímeros, lipoproteínas, emulsões, lectinas, hormonas, péptidos,
anticorpos, e sistemas mais complexos como vírus e eritrócitos, no
desenvolvimento de um transportador específico14,15. O objectivo de
todos estes transportadores é aumentar o potencial terapêutico de
um composto, impedindo que este se perca no trajecto para um alvo
específico, evitando simultaneamente a ocorrência de efeitos secundários nocivos noutra parte do organismo. Contudo, até hoje, nenhum sistema estudado conseguiu cumprir eficazmente este objectivo,
de modo a ser largamente aceite pela indústria farmacêutica.
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Santos e Castanho
LIPOSSOMAS CONVENCIONAIS
Estrutura
Como seria de esperar, os lipossomas têm sido o tema de inúmeros artigos de revisão, quer em termos gerais13,16-19, quer focados especialmente nas suas propriedades físicas20-24, preparação25-28, mecanismos de formação e fusão29,30, gradientes de pH e transporte de
membrana31, métodos de caracterização32,33, aplicação genérica em
Medicina 34,35, utilização como transportadores 36-40, técnicas de
encapsulamento de agentes bioactivos41, interacção com células42,
utilização em vacinas43, aplicações veterinárias44, utilização em substituição de eritrócitos45,46 ou aplicações cosméticas12; incluindo algumas revisões em língua portuguesa47-49.
Os lipossomas podem ser definidos como associações coloidais
de lípidos anfipáticos, que se organizam espontaneamente em estruturas fechadas tipo concha esférica. Podem ser preparados a partir
de misturas lipídicas naturais extraídas e purificadas, ou a partir de
lípidos sintéticos, disponíveis comercialmente. Conforme é indicado na Figura 1, os lipossomas podem ser classificados em termos de
tamanho, número de lamelas (e sua posição relativa), constituição
lipídica (o que também condiciona a sua carga), estabilidade e modo
de preparação18.
Quim. Nova
dos, ficou consagrado o nome de vesículas multilamelares ou MLV
(“multilamellar vesicles”). Como o nome indica, estas vesículas são
constituídas por várias (...truncated)