Effects of exposure to altitude on neuropsychology aspects: a literature review
revisão
Efeitos da exposição à altitude sobre os aspectos
neuropsicológicos: uma revisão da literatura
Effects of exposure to altitude on neuropsychology aspects:
a literature review
Valdir de Aquino Lemos1,3, Hanna Karen Moreira Antunes2,3, Ronaldo Vagner Thomatieli dos Santos2,3,
Juliana Martuscelli da Silva Prado3, Sergio Tufik1,3,4, Marco Túlio De Mello1,3,4
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Departamento de Psicobiologia, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo (SP), Brasil
Departamento de Biociências, Campus da Baixada Santista, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Santos (SP), Brasil
Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício (CEPE), São Paulo (SP), Brasil
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Resumo
Objetivo: Discutir os efeitos da exposição à altitude sobre as funções
neuropsicológicas. Método: Foi realizada uma revisão de literatura
usando como fonte de pesquisa artigos indexados no Pubmed, no período
de 1921 a 2008, utilizando as palavras-chave “cognition and hypoxia”,
“hypoxia and neuropsychology”, “acute hypoxia”, “chronic hypoxia” e
“acclimatization and hypoxia”, além de livros específicos do assunto.
Discussão: Os efeitos agudos e crônicos da hipóxia podem alterar
inúmeras funções neuropsicológicas em diferentes altitudes, decorrentes
de alterações fisiológicas que resultam da diminuição parcial de oxigênio
(O2), que podem levar as alterações neuropsicológicas, como atenção,
memória, tomada de decisão e demais funções executivas, em indivíduos
expostos a grandes altitudes. Conclusão: Indivíduos que se expõem
às grandes altitudes devem utilizar suplementação de O2 e prática de
aclimatização, entre outras estratégias para minimizar os efeitos negativos
da hipóxia nos aspectos neuropsicológicos.
Descritores: Hipóxia; Neuropsicologia; Altitude; Aclimatação; Prevenção
de doenças
Abstract
Objective: Discuss the effects of altitude exposure on neuropsychological
functions. Method: We have conducted a literature review using as source
indexed articles at Pubmed in the period from 1921 to 2008, using the
following key words: “cognition and hypoxia”, “hypoxia and neuropsychology”,
“acute hypoxia”, “chronic hypoxia”, and “acclimatization and hypoxia”, as
well as specific books on the subject. Discussion: Acute and chronic effects
of Hypoxia can alter many of the neuropsychological functions in different
altitudes due to physiological changes resulted by the oxygen (O2) partial
decrease that can lead to neuropsychological alterations in individuals exposed
to high altitudes. Conclusion: Individuals exposed to high altitudes must
use an O2 supplementation and the practice of acclimatization, among other
strategy ways that can be used in order to minimize the negative effects of
hypoxia on neuropsychological aspects.
Descriptors: Hypoxia; Neuropsychology; Altitude; Acclimatization; Disease
prevention
Introdução
Atualmente, há uma grande procura por práticas de atividades
físicas relacionadas à altitude, como caminhada, montanhismo e
esqui, no Brasil e em diversos outros países. Além disso, passeios e
estadias em altitudes elevadas por períodos curtos ou prolongados a
trabalho também são muito praticados1,2. A elevação da altitude faz
com que a pressão barométrica em relação ao nível do mar diminua,
resultando em uma redução da pressão parcial de oxigênio (O2)
para o organismo (sangue e tecidos corporais)3. A esta diminuição
da parcialidade da oferta de O2 denomina-se hipóxia, responsável
por respostas às grandes altitudes4. Portanto, de modo geral, os
efeitos agudos e crônicos da hipóxia podem acarretar no ser humano
alterações fisiológicas e também cerebrais.5
Fisiologicamente, na vigência da exposição às grandes altitudes,
o indivíduo tenta adaptar-se e o organismo humano produz
respostas em vários sistemas, por isso acontecem diferentes ajustes
que vão desde alterações no sistema cardiovascular até o músculo
esquelético, passando pelo endócrino, imune, até chegar ao
cérebro6. Tais alterações fisiológicas, decorrentes da diminuição da
oferta de O2, afetam a manutenção das funções cerebrais e físicas,
que dependem de um percentual de 21% de O2 para funcionar
adequadamente7.
Uma em cada oito pessoas que se propõem a escalar a maior
montanha do mundo, por exemplo, o Monte Evereste, com
8.848m de altitude, morre. De cada quatro pessoas que atingem
Submetido: 28 Abril 2009
Aceito: 16 Julho 2009
Correspondence
Marco Túlio de Mello
Rua Marselhesa, 535, Vila Clementino
04020-060 São Paulo, SP, Brasil
Fax: (+55 11) 5572-0177
E-mail:
70 • Revista Brasileira de Psiquiatria • vol 32 • nº 1 • mar2010
Hipóxia e aspectos neuropsicológicos
o cume da montanha com sucesso, há pelo menos um que perde
a vida durante a descida ou durante a subida logo após uma longa
exposição à altitude. Todos os anos, uma parcela grande de pessoas
também segue a outros lugares do mundo com altitudes elevadas,
como Machu Picchu, Andes boliviano, Alpes suíços, entre outros
ambientes que também podem colocar a vida de pessoas em risco
em decorrência da hipóxia8.
Somente nas montanhas localizadas na região dos Himalaias,
no período de 1950 a 2006, foi registrada uma média de 784
mortes em altitudes elevadas, o equivalente a 14 óbitos por ano9.
Este dado é assustador, quando se compara com outro tipo de
esporte considerado de alto risco, como, por exemplo, o boxe,
que no período de 1890 a 2007, resultou em uma média de 923
óbitos, o equivalente a oito pessoas por ano em todo o mundo10.
Tais dados indicam que os números de óbitos em ambientes de
hipóxia podem ser até maiores do que aqueles gerados pela prática
de esportes considerados de alto risco.
Assim, indivíduos expostos a 610-2.440m já podem apresentar
alterações na aprendizagem11 e, em altitudes acima de 3.500m,
podem ocorrer comportamentos ansiosos e sintomas da Doença
Aguda da Montanha, tais como cefaléia, insônia, taquicardia, falta
de ar e vertigens, semelhantes aos relatos de ataques de pânico ou de
ansiedade severa. Esses comportamentos são ocasionados por uma
hiperventilação em consequência da hipóxia, que pode levar a uma
diminuição das concentrações de dióxido de carbono no sangue
arterial12,13. Em altitudes de 5.000m, os efeitos da hipóxia podem
produzir no organismo menor resistência muscular nos braços e nas
pernas, dores de cabeça, tonturas, dificuldades para respirar e, além
disso, alterações visuomotoras, mudanças de personalidade (como
sintomas obsessivo-compulsivos e hostilidade, pelas diminuições da
pressão de O2 inspirado pela traquéia), pressão alveolar de O2, pressão
parcial de O2 na artéria sanguínea e pela saturação de hemoglobina
com O2 no sangue arterial. O resultado da falta de O2 é, portanto,
crucial como mecanismo no desenvolvimento de problemas
físicos que podem levar às alterações neuropsicológicas em grandes
altitudes14-16. A 6.000m de altitude, a média de erros em avaliações
neuropsicológicas para indivíduos não aclimatizados são maiores
em relação àqueles aclimatizados, porq (...truncated)