Movies in the development of future teachers: teaching one to look
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FILMES NA FORMAÇÃO DE FUTUROS PROFESSORES:
EDUCAR O OLHAR
Laura Noemi Chaluh*
RESUMO: Neste artigo, trago parte de minha experiência como professora de futuros professores de Matemática quando ministrei a disciplina Didática, no ano de 2010. Socializo
aqui algumas das práticas instituídas nesse contexto e que resgatam a potencialidade dos
filmes e da escrita no processo formativo dos alunos. Problematizo a importância de
“assistir juntos” a um filme, já que essa experiência estética possibilita promover o conhecimento, o sentimento e a ação. Trago a voz dos meus alunos, documentada nos registros
semanais elaborados por eles, para dizer das “marcas” que os filmes deixaram no percurso formativo de cada um como futuros professores de Matemática. Ao resgatar essa prática, enfatizo a importância de “educar o olhar” na busca pela constituição de um professor comprometido com uma educação e uma sociedade mais justa e democrática.
Palavras-chave: Formação de Professores. Filme. Prática Pedagógica.
MOVIES IN THE DEVELOPMENT OF FUTURE TEACHERS:
TEACHING ONE TO LOOK
ABSTRACT: In this paper I share some of my experiences as a teacher trainer at a college
for Mathematics teachers, where I taught the subject area "Didactics", in 2010. I offer
some of the practices that were put in place in the duration of that training. These (practices) bring to the fore the potential of movies, written works in the process of training
students. I highlight the importance of watching a movie together because the aesthetic
experience shared, permits a growth in knowledge and feelings and inspires action. I
bring the voices of my students, documented in their weekly records, to show the
"marks" (or impressions) left by the movies on each one’s developmental path, towards
becoming a mathematics teacher. In highlighting this practice, I emphasize the importance of “teaching to look”, in the quest for well-educated, committed teachers and in
the bringing-about-of a more just and democratic society.
Keywords: Teacher Education. Movies. Educational Practice.
* Doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e Professora
Assistente do Departamento de Educação na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP, Rio Claro)
e do Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Biociência da Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho (UNESP, Rio Claro). E-mail:
Educação em Revista | Belo Horizonte | v.28 | n.02 | p.133-152 | jun. 2012
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Introdução
Neste trabalho, socializo parte de minha experiência como professora de Didática, na Licenciatura em Matemática. A disciplina é anual
e os encontros ocorrem semanalmente. Destaco que ela é oferecida no
terceiro ano do curso e que, só nesse momento, os alunos iniciam estudos
específicos relacionados com as questões educativas.
A turma estava constituída por 21 alunos, que, desde o primeiro
dia de aula, inquietaram-me com suas respostas sobre o que concebiam
em relação ao que era a Didática. Algumas das respostas registradas no
meu caderno dizem de uma concepção técnica dessa disciplina. Segundo
a maioria dos alunos, a didática trataria os seguintes aspectos: “como ensinar”, “ter bagagem para passar para os alunos” “como explicar o conteúdo”, “ter facilidade para passar matéria para o aluno”, “para dar aula”,
“aprender a ensinar”, “métodos e maneiras de ensino”, “métodos de ensinar”, “como agir”, “como passar informação para os alunos”. Poucos
apontaram para questões que, não necessariamente, tinham a ver com
“passar o conteúdo”, e suas preocupações estavam atreladas a querer
saber “como enfrentar os problemas com os alunos” e “como prender a
atenção do aluno”.
No primeiro encontro, ficou instituída a prática do registro. Essa
prática tinha por objetivo que os alunos começassem a olhar para a sala
de aula, para o grupo que estávamos constituindo. Implicava reconhecer
que, nesse contexto, era possível perceber acontecimentos relacionados
com as relações interpessoais, com o tipo de comunicação que poderíamos estabelecer, com os papéis que cada um de nós poderia assumir, etc.
Assim, desde o primeiro dia, foi colocada a importância da
observação e do registro. Todos nós iríamos fazer o registro de todas as
aulas. Essa escrita poderia conter descrições dos acontecimentos vividos
na sala, impressões, sensações, sentimentos, em definitivo, o que nos tinha
“tocado”, “acontecido” nesse encontro (LARROSA, 2004). Para isso, resgato a ideia de experiência, segundo o mesmo autor, “é o que nos passa,
o que nos acontece, o que nos toca [...]. Walter Benjamin, em um texto
célebre, já observava a pobreza de experiências que caracteriza o nosso
mundo. Nunca se passaram tantas coisas, mas a experiência é cada vez
mais rara” (LARROSA, 2004, p. 116). No início das aulas, eram socializados os registros de alguns alunos e também o meu.
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Valorizo essa prática de registro nas aulas com meus alunos, já
que foi algo vivido por mim em uma disciplina da universidade, na minha
própria formação. Isso, na época, permitiu-me mudar meu olhar: 1) olhar
mais aprofundado sobre a sala de aula; 2) perceber que, frente a um
mesmo acontecimento compartilhado, nossos olhares eram diferenciados;
3) um olhar, uma observação e um registro vinculados com a reflexão.
Essas considerações sobre a prática do registro importam, pois
é a partir dos registros sistematizados por meus alunos, alguns dos quais
serão apresentados aqui, que problematizo a importância de “assistir a filmes junto com” nossos alunos, seja na universidade, seja na escola. Essa
prática, instituída por mim nas minhas aulas, mostra-se como provocadora para ampliar o olhar, a percepção, o sentir e o pensar sobre a educação
e para promover a ação dos futuros professores. Nesse sentido, enfatizo
a importância de “sensibilizar o olhar” ou “educar o olhar” dos nossos
alunos, futuros professores, pelas implicações que isso tem no processo
formativo.
Sobre os filmes no contexto da sala de aula
Alguns teóricos enfatizam a importância de legitimar, no contexto da sala de aula, tanto o conhecimento científico quanto outros aspectos da cultura – teatro, música, artes plásticas –, já que, como considera
Kramer (2003), eles possibilitam tecer relações com a emoção, o corpo, a
criação.
Na mesma linha, Guimarães, Nunes e Leite (2002), ao tratarem
da formação do profissional da educação, consideram que
a formação deve erigir-se banhada na cultura, contemplando experiências
com artes plásticas, música, teatro, fotografia, cinema, museus, literatura, dentre outras. O profissional não é um objeto no qual se devam depositar conceitos e esperar respostas adequadas; ele é sujeito cidadão do mundo que tem
direito ao conhecimento, à reflexão, à escola, à expressão (2002, p. 170).
Garcia e Alves (2002) estabelecem um diálogo a partir de suas
próprias experiências com a formação de futuros professores e (...truncated)