A Música mesmo no meio da Escola

Saber & Educar, Nov 2009

Todos reconhecemos na Música um enorme poder de sedução. Todos nós sentimos que na Escola se joga o incómodo desafio de nos projectarmos no futuro. Todos nós reconhecemos à Música o direito de se manifestar pelo interior da Escola e de, com ela, nos ajudar a encontrar os lugares de memória da nossa cultura. Será possível agora, num arco curto de tempo, cartografar cumplicidades quanto baste e propor a construção de uma reflexão que desperte em todos sonhos e poderes?

Article PDF cannot be displayed. You can download it here:

http://revista.esepf.pt/index.php/sabereducar/article/download/113/82

A Música mesmo no meio da Escola

Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti Cadernos de Estudo 14 A Música mesmo no meio da Escola Mário Azevedo Maestro. Diplomado pelo Sthichting Orff-Werkgroep de Delft/ Holanda. Professor de Reportório, de Análise de Fonogramas e Eventos, de História do Jazz e de Músicas do Mundo na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo do Porto. Resumo Todos reconhecemos na Música um enorme poder de sedução. Todos nós sentimos que na Escola se joga o incómodo desafio de nos projectarmos no futuro. Todos nós reconhecemos à Música o direito de se manifestar pelo interior da Escola e de, com ela, nos ajudar a encontrar os lugares de memória da nossa cultura. Será possível agora, num arco curto de tempo, cartografar cumplicidades quanto baste e propor a construção de uma reflexão que desperte em todos sonhos e poderes? Palavras-chave Escola, Música, Lugares da Memória “La Musique en plein milieu de l’´École” Mário Azevedo Chef d’orchestre. Diplômé par le Sthichting Orff-Werkgroep de Delft/ Hollande. Professeur de Répertoire, d’Analyse de Phonogrammes et Evénements, d’Histoire du Jazz et de Musiques du Monde à l’École Supérieure de Musique et Arts du Spectacle de Porto. Résumé Nous tous reconnaissons à la Musique un pouvoir énorme de séduction. Nous tous sentons qu’à l’École a lieu l’incommode défi de nous projeter à l’avenir. Nous tous reconnaissons à la Musique le droit de se manifester à l’intérieur de l’École et de, avec elle, nous aider à trouver les places de mémoire de notre culture. Sera-t-il possible, maintenant, en peu de temps, cartographier assez de complicités et proposer la construction d’une réflexion qui puisse éveiller en tous des rêves et des pouvoirs? Mots-clé École, Musique, Places de la Mémoire Abstract We all recognize the enormous power of music seduction. We all feel that in the school one is playing the awkward challenge of projecting oneself in the future. We all recognize in music the right to demonstrate school and, with it, help us find the places of memory of our culture. Is it possible now, a short arc of time, mapping complicities enough and propose the construction of a reflection on all that awakens dreams and powers? Keywords School, Music, Memory Places Resumen Todos reconocemos el enorme poder de seducción de la música. Todos sentimos que en la escuela se está desempeñando un difícil reto de la proyección de uno mismo en el futuro. Todos reconocemos en la música el derecho a manifestarse la escuela y, con ella, nos ayuda a encontrar los lugares de la memoria de nuestra cultura. ¿Es posible ahora, un breve arco de tiempo, cartografiar complicidades suficiente y proponer la construcción de una reflexión sobre todo lo que despierta los sueños y las competencias? Palabras clave Escuela, Música, Locales de Memoria 1 Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti Cadernos de Estudo 14 Ouvir não é um mérito. Os patos também ouvem. Stravinsky Da Música e das suas propriedades A Música, pela sua ubiquidade, parece-nos ser um fenómeno natural, intuitivo e característico do comportamento do ser humano. Tão natural e tão humana que parece ser tarefa impossível determinar o seu início, donde vem ou como se manifestou pela primeira vez. Na dúvida, começamos por suspeitar que tem o mesmo tempo que o Homem tem. E assim estamos… ainda hoje, tão… etnocêntricos! A mitologia mais antiga, na sua tentativa de justificar quem somos e de nos colocar no nosso lugar, atribuiu-lhe origem divina e, por razão de força maior, enobreceu a sua transcendência. Essa responsabilidade que lhe foi insuflada, como sabemos, ainda hoje se faz sentir. Talvez por isso seja importante lembrar aqui que, em muitas culturas, o termo “Música” é poucas vezes imaginado, tal como o fazemos por cá, como uma organização sonora que decorre num espaço limitado de tempo. A Música encontra, neste seu piscar de olhos às diferentes culturas e neste seu jeito flutuante de se deslocar, mil maneiras de fintar o seu próprio destino e de se manifestar solidária com os modos de ser de cada sociedade, de cada lugar e de cada costume. Assim podemos dizer que a Música é uma espécie de realidade que soa. Exactamente porque o meio natural, cultural e social em que vivemos é sonoro. Dir-se-ia visceralmente sonoro! Bastará, sem grande esforço, darmos conta dessa imensa sonosfera que nos acompanha em todos os momentos da nossa vida, do nosso trabalho e do nosso ócio. Resulta desta circunstância uma proximidade tal à sua presença que, a nosso ver, essa mundivência sonora toca de perto a cumplicidade, a intimidade…ou a promiscuidade. Podemos afirmar então que a dimensão sonora do mundo, nas suas múltiplas formas, se manifesta humanamente do ponto de vista físico, psíquico e mental. Tudo isto, como facilmente imaginamos, tem repercussões enormes no Homem, como ser cultural e como ser bio–psico–social. O que ficamos a saber? Sabemos que o som é um fenómeno físico de natureza vibratória. Mas o que é que daí resulta? O que será, então, o som para o ouvido humano? Para o ouvido humano os sons são imagens auditivas da realidade, sinais de coisas que acontecem, são pontos de contacto com o mundo. Esta dupla propriedade dos sons - vibração/sinal, natureza própria/pensamento-conceito - permite-nos usálos como representações mentais, como objectos de conhecimento, como peças de um tetris sonoro desempenhando papéis fundamentais de carácter simbólico. Por causa da Música, mas sobretudo pelo que fazemos dela, podemos dizer que o som contém em si mesmo, e quanto baste, partículas orgânicas e semânticas com elevado potencial de comunicação. Ora, o potencial simbólico do som desenvolveu-se de tal forma que deu, pela natureza própria de se manifestar, lugar a uma sofisticada linguagem, a Música, e a um fascinante sistema de comunicação. Música e som vêm-se ao espelho, voltam a olhar-se, e parecem ficar a gostar e a retirar enorme prazer deste jogo, desta brincadeira. A Música nasce, pois, deste imenso e inesgotável jogo sonoro. A Música, talvez por causa disso, tornou-se universal. E, da mesma forma, ela está e esteve presente, desde sempre, nos momentos mais significativos da criação humana. De que falamos então, quando falamos de Música? Uma resposta literal: um determinado tipo de vibração sonora assente e enquadrada em pressupostos de ordem culturalmente diversificada. Música é um fenómeno conceptual que acontece, tem lugar, na nossa mente. Sem mais! Daí podermos “resolver” e clarificar a distinção entre ruído e Música. Música resulta de uma série de vibrações sónicas transmitidas ao cérebro através dos ouvidos. E é no cérebro, lugar onde tudo acontece, que começa todo o processo a partir do qual os sons começam a “fazer sentido”. Aí podemos dar aos sons uma ordem determinada. Ou podemos, simplesmente, jogar com eles. Quer sensorial, quer estrutural, quer semânticamente…é só escolher! 2 Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti Cadernos de Estudo 14 Não será por acaso que a expressão “ fazer Música (...truncated)


This is a preview of a remote PDF: http://revista.esepf.pt/index.php/sabereducar/article/download/113/82
Article home page: https://doaj.org/article/8ff299ec4db74aa0807252b7126e8080

Mário Azevedo. A Música mesmo no meio da Escola, Saber & Educar, 2009, Volume 14, DOI: 10.17346/se.vol14.113