Annonaceae from Natural Reserve Vale, Linhares, Espírito Santo
Rodriguésia 65(3): 599-635. 2014
http://rodriguesia.jbrj.gov.br
DOI: 10.1590/2175-7860201465304
Annonaceae da Reserva Natural Vale, Linhares, Espírito Santo
Annonaceae from Natural Reserve Vale, Linhares, Espírito Santo
Jenifer de Carvalho Lopes1 & Renato de Mello-Silva1, 2
Resumo
As Annonaceae da Reserva Natural Vale, localizada em Linhares, Espírito Santo, estão distribuídas em
11 gêneros e 27 espécies. São apresentadas chaves de identificação para os gêneros e para as espécies e
ilustrações dos caracteres diagnósticos. O gênero com maior número de espécies é Annona, com cinco,
seguido por Guatteria com quatro. Duguetia, Honschuchia, Oxandra e Xylopia têm três espécies cada e
Unonopsis, duas espécies. Anaxagorea, Cymbopetalum, Ephedranthus e Pseudoxandra são representados por
apenas uma espécie cada. São endêmicas da Mata Atlântica 18 espécies, das quais quatro são endêmicas da
Reserva Natural Vale. A identidade das espécies de Guatteria na Reserva é controversa. Flores masculinas
de Pseudoxandra spiritus-sancti são descritas pela primeira vez, constituindo também o primeiro relato de
androdioicia em Pseudoxandra.
Palavras-chave: androdioicia, endemismo, Guatteria, Mata Atlântica, Pseudoxandra.
Abstract
The Annonaceae from Natural Reserve Vale located in Linhares, Espírito Santo, include 11 genera and 27
species. Key to genera and species and illustrations to diagnostics characteristics are presented. Annona is the
most diverse genus, with five species, followed by Guatteria, with four. Duguetia, Honschuchia, Oxandra,
and Xylopia are represented by three species each, and Unonopsis by two. Anaxagorea, Cymbopetalum,
Ephedranthus, and Pseudoxandra are represented by only one species each. There are 18 endemic species from
the Atlantic Forest and four species are endemic from Natural Reserve Vale. The identity of Guatteria species
is controversial. Male flowers of Pseudoxandra spiritus-sancti are described for the first time, constituting
the first report of androdioecy in Pseudoxandra.
Key words: androdioecy, endemism, Guatteria, Atlantic Forest, Pseudoxandra.
Introdução
Annonaceae é a família com maior número
de espécies entre as Magnoliales. A família é
pantropical e conta com aproximadamente 108
gêneros e 2.400 espécies atualmente reconhecidos
(Rainer & Chatrou 2006; Chatrou et al. 2012).
Annonaceae está entre as famílias mais ricas e
abundantes nas florestas tropicais (Gentry 1988; Ter
Steege et al. 2000), sendo, assim, abundante na Mata
Atlântica (Leitão-Filho 1987). Um tipo particular de
floresta no domínio da Mata Atlântica é a floresta de
tabuleiro, que se estende do norte do Rio de Janeiro
ao sul da Bahia. O maior remanescente de floresta
de tabuleiro situa-se no norte do Espírito Santo e
cobre cerca de 46.000 hectares de floresta contínua,
incluída em duas reservas, a Reserva Biológica de
Sooretama, em Sooretama, e a Reserva Natural Vale,
1
2
em Linhares (Garay 2003). Apesar da importância
destas áreas, existem poucos estudos sobre sua
vegetação (e.g. Mansano & Tozzi 2004; Peixoto &
Gentry 1990; Rolim et al. 2006) e também poucos
levantamentos sobre as Annonaceae desta região
(Lobão et al. 2010).
Este tratamento taxonômico das Annonaceae
da Reserva Natural Vale é pioneiro no estudo da
diversidade desta família na floresta de tabuleiro
e no Espírito Santo, e adiciona novas informações
sobre as espécies, além de prover chaves de
identificação para os gêneros e espécies.
Material e Métodos
A área de estudo
A Reserva Natural Vale está localizada no
Espírito Santo, nos municípios de Linhares e
Universidade de São Paulo, Inst. Biociências, Depto. Botânica. R. do Matão 277, 05508-090, Sao Paulo, SP, Brasil.
Autor para correspondência:
600
Jaguaré. Possui 22.777 hectares entre as coordenadas
geográficas de 19°06’ e 19°18’S e 39°45’ e 40°19’W.
As altitudes da Reserva variam de 28 a 65 m
(Mansano & Tozzi 2004). A Reserva está incluída
na região climática Awi (Köppen 1948), e o clima
é quente e úmido com média anual de precipitação
de 1.214 mm (Peixoto et al. 2008). A estação seca
vai de maio a setembro, porém apenas em julho e
agosto a taxa de precipitação é inferior a 60 mm de
chuva. A média anual de temperatura é de 23,6°C,
com temperaturas extremas em julho (15,6°C) e
em fevereiro (27,5°C) (Peixoto & Gentry 1990).
Os terrenos da região estão sobre sedimentos
continentais costeiros terciários do Grupo Barreiras
(Vicenz et al. 2003), cuja principal vegetação é a
floresta de tabuleiro ou floresta ombrófila densa de
terras baixas ou floresta alta de terra firme (Veloso et
al. 1991; Rizzini 1997). Na Reserva, além da floresta
de tabuleiro, são encontradas mais três fisionomias
vegetacionais: a floresta de muçununga, o campo
nativo e a floresta de várzea, associados às diferentes
características geomorfológicas do substrato (Garay
et al. 2003). A floresta de tabuleiro, que ocupa
aproximadamente 70% da área da Reserva (Peixoto
et al. 2008), está instalada sobre solos podzólicos,
cuja matriz são os sedimentos do Grupo Barreiras
(Garay et al. 2003). O estrato superior desta floresta
é formado por árvores entre 19 e 31 m de altura e
diâmetro de quatro a 14 m e os táxons mais ricos
em espécies são Myrtaceae e a subfamília Faboideae
de Leguminosae. As ervas são principalmente das
famílias Rubiaceae e Marantaceae e as hemiepífitas
e epífitas das famílias Araceae, Bromeliaceae
e Cactaceae (Peixoto et al. 2008). A floresta de
muçununga ocupa aproximadamente 7,9% da área
da Reserva (Peixoto et al. 2008) e assemelha-se em
sua fisionomia às matas de restinga (Garay et al.
2003). Situa-se em regiões com solo do tipo Podzol,
no qual o substrato quaternário arenoso alcança certa
espessura e o lençol freático está a cerca de 2 m da
superfície. Nesse ambiente há menor diversidade de
espécies e maior abundância de espécies xerófitas,
lianas e bromélias. O campo nativo ocupa cerca de
10% da área da Reserva e sua composição florística é
similar à das restingas do Sudeste do Brasil (Peixoto
1982). Há dois tipos básicos de campos nativos na
Reserva, o graminoide e o arbustivo. Os nativos do
tipo graminoide consistem de plantas herbáceas,
com predominância de Panicum trinii Kunth e
Lagenocarpus rigidus (Kunth) Nees, e de arbustos
isolados. Já os nativos do tipo arbustivo possuem,
predominantemente, espécies lenhosas com até 5 m
de altura (Araujo et al. 2008). A floresta de várzea
Lopes, J.C. & Mello-Silva, R.
ocupa 11,6% da área da Reserva (Jesus 1987 apud
Peixoto et al. 2008) e está localizada sobre solos
hidromórficos, com o lençol freático pouco profundo
e às vezes emergente, dependendo da estação do ano
e do regime de chuvas (Garay et al. 2003).
Estudos morfológicos
Foram estudadas as coleções dos herbários
BHCB, CESJ, CVRD, ESA, MBM, MBML,
R, RB, RBR, SP e SPF (siglas segundo Thiers
continuously updated). O material foi analisado
em estereomicroscópio Olympus SZ-STB1. As
medidas das estruturas foram realizadas no material
herborizado com paquímetro digital, General
147. A (...truncated)