The rise of left-wing populism in French politics: The case of Jean-Luc Mélenchon's France Insoumise
ELEIÇÕES NA EUROPA PÓS-CRISE
O surgimento
do populismo de esquerda
na política francesa
O movimento «França Insubmissa»
de Jean-Luc Mélenchon
Philippe Marlière
INTRODUÇÃO
SEM ESCALADA DA FRENTE NACIONAL
Na corrida às eleições presidenciais de 2017 em França,
as sondagens previam uma escalada da Frente Nacional
(FN), um partido de extrema-direita. Marine Le Pen realmente conseguiu o apuramento para a segunda volta mas
foi derrotada por Emmanuel Macron, o seu oponente.
Desde então, a FN tem estado em crise e, pela primeira
vez desde há muito tempo, a sua combinação de políticas
etnocêntricas e eurocéticas já não está a marcar a agenda
nacional.
Os resultados mais notáveis das eleições presidenciais
e legislativas são a vitória inesperada de Emmanuel
Macron, um jovem político até então não testado, que
veio desafiar a divisão tradicional entre esquerda e
direita, bem como o colapso súbito do Partido Socialista (PS), cujo futuro enquanto força política de primeira grandeza está agora em dúvida. Mas o surgimento
do movimento França Insubmissa ( FI ) de Jean-Luc
Mélenchon, que professa um rótulo de «populismo de
esquerda», é de facto um grande desenvolvimento na
política francesa. É possível afirmar que o populismo
de Mélenchon contrariou o populismo de Le Pen, ao
orientar as questões em debate para a arena socioeconómica. Consequentemente, conseguiu neutralizar a
política etnocêntrica de Le Pen.
RESUMO
N
o arranque para as eleições presidenciais de 2017 em França,
Jean-Luc Mélenchon, um político associado à esquerda radical, formou um
novo movimento chamado «France
Insoumise» (França Insubmissa – FI).
Tratou-se de uma tentativa de organizar as massas ao longo de uma linha
de clivagem agonística entre «o povo»
e «a elite», e constituiu também uma
rutura radical com as tradicionais formas coletivas de liderança e atuação
da esquerda francesa. O que define o
populismo da FI é o papel e a centralidade do líder. É possível equacionar
se o populismo é a melhor estratégia
para ampliar o eleitorado da esquerda,
já que os populismos de esquerda e de
direita não incidem sobre as mesmas
questões culturais e não expressam os
mesmos sentimentos.
Palavras-chave: Populismo, França,
esquerda, Jean-Luc Mélenchon.
ABSTRACT
The rise of left-wing
populism in French
politics. The case of
Jean-Luc Mélenchon’s
France Insoumise
>
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2017 56 [ pp. 061-076 ]
https://doi.org/10.23906/ri2017.56a04
I
n the run-up to the 2017 presidential
election in France, Jean-Luc Mélenchon, who had been associated with
the radical left, formed a new movement called France Insoumise (Unbowed
France – FI). This was an attempt to
organise the masses along the lines of
an agonistic cleavage between ‘the
people’ and ‘the elite’, and this was
also a radical break with the collective
forms of leadership and action on the
French left. What defines FI’s populism is the role and the centrality of
the leader. One may wonder whether
populism is the best strategy to broaden the left’s electorate as left-wing
and right-wing populisms do not tap
in the same culture and do not express
the same feelings.
POPULISMO DE ESQUERDA
Existem normalmente quatro valores fundamentais no
cerne do populismo 1: a) a existência de duas grandes
unidades de análise – «o povo» e «a elite»; b) a relação
antagónica entre o povo e a elite; c) a valorização positiva do povo e a depreciação da elite; d) a ideia de soberania popular.
O populismo carece de valores fundamentais e é «camaleónico», uma vez que a cor ideológica que adota depende
do contexto e dos valores do círculo eleitoral ao qual
apela2. A falta de um centro de gravidade programático
torna difícil falar de uma ideologia populista3. Acima de
tudo, deve rejeitar-se a ideia de que o populismo é uma
ideologia – por mais «centrado» que seja – e concebê-lo
Keywords: Populism, France, left, Jeanantes como um «quadro discursivo»4.
Luc Mélenchon.
Desta forma, se o populismo não é uma ideologia per
se mas essencialmente uma estratégia que divide o
campo político em dois lados antagónicos (o povo versus a oligarquia), recorrendo
a um tipo particular de retórica, é possível defender que da FI é populista.
Em primeiro lugar, identificarei o contexto pessoal e organizacional da FI , um
movimento que nasceu oficialmente em fevereiro de 2016. Como a organização foi
lançada por Jean-Luc Mélenchon, o autoproclamado líder e candidato às eleições
presidenciais de 2017, a personalidade do líder da FI é fundamental para entender
o tipo particular de populismo que o movimento personifica.
O tipo de populismo de Mélenchon e da FI será então examinado: que tipo de
«híbrido populista» encarna? Grandes segmentos da esquerda francesa sempre
evitaram ver-se associados ao populismo. Sendo assim, como conseguiu a FI tornar-se o principal partido da esquerda num período tão curto? Tratar-se-á realmente
de um movimento de esquerda? Quais são as principais ideias e aspetos que tornam
a FI um «movimento populista»?
Finalmente, tentarei esclarecer até que ponto o populismo da FI facilitou o grande
crescimento deste movimento nas eleições presidenciais de 2017 e, em menor
escala, nas eleições legislativas subsequentes.
MÉLENCHON:
DA POLÍTICA TRADICIONAL DE ESQUERDA
AO «POPULISMO DE ESQUERDA»
UM POLÍTICO PROFISSIONAL CONVENCIONAL
Depois de ter diagnosticado que a social-democracia era uma força exaurida enquanto
organização progressista5, Jean-Luc Mélenchon deixou o PS em 2008 e lançou o Partido
RELAÇÕES INTERNACIONAIS DEZEMBRO : 2017 56
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de Esquerda (PG). Durante mais de 35 anos, Mélenchon tinha sido um membro da ala
mais à esquerda do PS.
Nas eleições presidenciais de 2012, Mélenchon foi o representante da Frente de Esquerda
(FDG), uma aliança de vários partidos de esquerda. Conseguiu o quarto lugar e obteve
11,1 por cento dos votos a nível nacional.
Jean-Luc Mélenchon não é, no entanto, um esquerdista típico. É um experiente político
de carreira, oriundo dos círculos políticos dominantes, ainda que sempre se tenha
posicionado na ala esquerda do PS (ainda
assim, foi um fiel apoiante do Presidente
JEAN-LUC MÉLENCHON É UM EXPERIENTE
Mitterrand). Esta é a sua grande diferença
POLÍTICO DE CARREIRA, ORIUNDO DOS CÍRCULOS
em relação a outros líderes de partidos da
POLÍTICOS DOMINANTES. ESTA É A SUA GRANDE
esquerda radical na Europa, que tendem a
DIFERENÇA EM RELAÇÃO A OUTROS LÍDERES DE
ser mais jovens e são oriundos do campo
PARTIDOS DA ESQUERDA RADICAL NA EUROPA.
da esquerda radical (Pablo Iglesias na
Espanha, Alexis Tsipras na Grécia, Catarina Martins em Portugal). Só Oskar Lafontaine,
na Alemanha, teve uma trajetória política semelhante (do SPD para o Die Linke).
UMA RUTURA COM AS TRADIÇÕES DA ESQUERDA
Em fevereiro de 2016, um ano e três meses antes da eleição presidencial, Jean-Luc
Mélenchon «propôs a sua candidatura» ao país na TF1, o principal canal privado
de televisão em França. Ao tomar a decisão de concorrer sem consultar os seus
aliados da FDG , Mélenchon seguiu uma ve (...truncated)